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O voto cristão: amor e misericórdia

João Eduardo Cruz
2 dias atrás
Como deve votar o cristão? A Bíblia não menciona o voto, mas revela princípios que orientam cada escolha nas urnas. Entre o despertamento político e o exemplo de Paulo, o voto cristão se apoia em dois pilares que transformam a decisão em ato de fé e amor ao próximo.


O apóstolo Paulo não falou sobre o voto cristão. Mas, se perguntássemos a sua posição política, veríamos claramente que se tratava de alguém moderado. Ele vivia na perspectiva de quem busca manter uma distância pacífica dos ditames governamentais de sua época por meio do respeito.

Ele escreveu:

“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas.” (Romanos 13:1)

Paulo e o governo romano

A igreja primitiva viveu em um contexto muito diferente do nosso nesse sentido. Eles não estavam dentro de uma democracia; na verdade, podemos dizer que, se fosse feita uma leitura a partir do modo como enxergamos as correntes políticas hoje, nossos irmãos enfrentavam uma espécie de ditadura — isso falo por meio de um anacronismo, lógico.

O que os cristãos experimentavam por meio do governo romano naquela época era, na realidade, uma monarquia autocrática, um absolutismo imperial.

Ao que parece, Paulo queria apenas que os irmãos pudessem respeitar os governantes, com vistas a manterem uma vida pacífica, de forma que pudessem propagar o Evangelho em paz. Ademais, é sempre bom lembrar que a visão escatológica daquele grupo de crentes era quase que imediata: esperavam que Cristo voltasse a qualquer momento. Isso, naturalmente, os fazia pensar que não valia a pena criar embates sociais e políticos. Muito em breve nada disso mais teria importância quando Cristo voltasse em glória.

“Isto, porém, vos digo, irmãos: o tempo se abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se o não fossem;

mas também os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; e os que compram, como se nada possuíssem;

e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa.” (1 Coríntios 7:29-31)

O desafio de aplicar a Bíblia hoje

Hoje, sobretudo em nosso país, houve uma espécie de “despertamento político”: vemos desde as comunidades mais simples até as mais influentes se pronunciando e se posicionando, a partir de suas lideranças, sobre a importância da representatividade política da Igreja nas esferas de poder.

A questão é: até que ponto isso é realmente importante para nós como Igreja?

Ou melhor: como o apóstolo Paulo se posicionaria se fosse um brasileiro vivendo agora, neste tempo?

Aliás, esse é sempre um desafio de todo pregador da Bíblia: lê-la em seu contexto histórico/social e aplicá-la em seu contexto universal. Trocando em miúdos: examinar o que Deus falou há mais de dois mil anos e ver o que é plenamente aplicável, independentemente até mesmo da cultura que nos rege, é o papel que cabe a aquele que se esmera em ensinar e expor a Palavra de Deus ao Seu povo.

O que é o voto cristão

Sem dúvida, é um desafio tentar falar sobre “voto cristão” a partir de uma perspectiva bíblica em que isso não era nem sequer mensurado. Mas, para assuntos que não são claramente apresentados nas Escrituras Sagradas, nós recorremos à inferência. Isto porque, longe de ser um livro de informações apenas, a Bíblia é também um livro de princípios. E Deus nos deu cognitividade para que pudéssemos ser capazes de compreender, a partir desses princípios, a maneira adequada de vivermos para agradá-Lo — ou, numa linguagem teológica, de vivermos para a Sua glória.

Portanto, podemos assim entender o que seria um voto cristão examinando algumas das características que devem permear o pensamento daqueles que confessam Jesus como Senhor. E, se pudermos fazer um exercício de esvaziamento ideológico, será ainda mais proveitosa a tentativa de entender o que seria um voto cristão.

Convém lembrar que, quando nos referimos a voto, estamos falando de depositar pessoalmente a nossa confiança em um determinado político ou partido. Ao assim fazer, estamos crendo que este irá cumprir, para o bem comum do povo, aquilo que de antemão prometeu por meio de seu projeto de governo.

Se pararmos para pensar, um voto não passa de uma aposta: não há garantias de que aquele que o recebe fará valer a confiança que lhe foi depositada.

Então, a primeira coisa a que devemos atentar nessa questão é que o nosso voto pode não mudar nada, ou mudar apenas uma ou outra coisa. Finalmente, não é no voto que está depositada toda a nossa esperança de transformação da realidade que permeia o mundo.

Fomos totalmente corrompidos pelo pecado; por isso, essa prerrogativa de transformação radical está exclusivamente nas mãos do único governante perfeito. Este, um dia reinará nesta terra: o Senhor Jesus.

O amor ao próximo no voto cristão

Sendo assim, o voto do cristão, essa confiança depositada, naturalmente será destinado àqueles que cremos abraçarem de bom grado os mesmos princípios que os nossos, ainda que possam não se valer da mesma fé e esperança que nos move.

Mas quais são esses princípios?

Nenhum de nós, ao lermos a Bíblia com calma e humildade, sobretudo o Novo Testamento, irá duvidar de que os principais princípios éticos que sintetizam a prática cristã são o amor ao próximo e a misericórdia.

O segredo do voto cristão está aqui: é necessário que o cristão opte por aqueles políticos que, em seu plano de governo, incluam o respeito à dignidade de cada ser humano que faz parte da sociedade. Isto porque que cremos que cada indivíduo foi criado à imagem e semelhança de Deus e deve ser visto como tal. Esse é o aspecto relativo ao amor ao próximo.

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gênesis 1:27)

Mas observe um detalhe importante: o cristão vê a dignidade humana não apenas em uma ótica econômica, mas também moral.

Entendemos que, por exemplo, quando um governo prega a permissividade sexual, está contribuindo para que a imagem de Deus no homem e na mulher seja ainda mais distorcida, conforme acabamos de ver em Gênesis 1.27.

Ademais, o amor cristão é baseado no amor de Deus, um amor que busca ajustar toda a criação à Sua vontade soberana. Isto sem imposição, mas com convicção. Para nós, não há amor em deixar o mundo ruir simplesmente para não implicar com a forma de pensar das pessoas contrárias a Deus.

Ao amar, não nos impomos; e, por amor, não silenciamos.

O voto cristão e a misericórdia

O segundo princípio que deve reger o nosso voto cristão é o da misericórdia, sobretudo daqueles que não têm como se defender. Na Bíblia, estes eram os pobres, os órfãos e as viúvas. Mas nossa lista contemporânea pode se estender destes para: os bebês nos ventres de suas mães, correndo o risco de serem abortados; as mulheres que sofrem violência sexual e física, muitas vezes vítimas daqueles que fazem parte da própria família.

E, ainda que muitos cristãos infelizmente não compreendam, devemos ter misericórdia também daqueles aos quais, pela corrupção política, foram roubadas as oportunidades de um viver digno.

Conclusão

Gostamos que as lideranças religiosas pensem por nós; isso parece nos isentar da responsabilidade pessoal que devemos ter ao fazermos nossas escolhas.

A Bíblia nos incita a pensarmos a partir da revelação divina que ela nos traz. Todos nós devemos assumir pessoalmente o papel que nos cabe como brasileiros, cristãos e, sobretudo, cidadãos do Reino de Deus.

Que seu voto seja movido pelo amor ao próximo e pela misericórdia. Não sabemos ao certo quais serão os resultados. Mas, ao votar, teremos a consciência limpa de quem exerceu a cidadania porque ora (ama) e chora (tem misericórdia) da sua nação.

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