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Uma Bíblia debaixo do braço

Isaias Lobão
2 meses atrás
Uma Bíblia debaixo do braço pode parecer apenas um detalhe numa manhã comum. Mas, em meio ao calor, à feira, às motocicletas e às lembranças de outros tempos, uma caminhada até a igreja pode revelar que pequenos sinais ainda dizem muito sobre aquilo em que cremos.


Hoje é domingo, 23 de agosto de 2026. Acordei cedo. Fiz minha devocional e depois fui tomar café. Nada de especial. Café com leite, pão com ovo e uma pequena fatia de melancia.

Mas preciso registrar um acontecimento doméstico de alguma importância. Fui eu mesmo quem fez o café.

Para alguém que, não faz muito tempo, considerava fritar um ovo uma operação de risco, tenho alcançado progressos culinários respeitáveis. Espero apenas que minha esposa não tome isso como sinal de que estou pronto para voos mais altos. Há vitórias que convém celebrar sem transformá-las imediatamente em novas responsabilidades.

Depois do café, peguei a Bíblia e saí andando pelo centro de Paraíso do Tocantins.

Agosto por aqui não costuma ter muita piedade de quem resolve caminhar. O sol já estava firme. Havia carros de som anunciando alguma coisa, motocicletas fazendo mais barulho do que talvez fosse necessário, gente passando pela feira, sacolas nas mãos, conversas rápidas nas calçadas.

No meio de tudo isso, eu seguia para a Igreja Presbiteriana Central com uma Bíblia debaixo do braço.

E não é uma Bíblia discreta.

Confesso que, às vezes, exagero um pouco.

A que estou usando agora é uma Bíblia de Estudo de Genebra, terceira edição. Grande, pesada, cheia de notas, artigos, referências e, ao final, os textos das confissões de fé. Escolhi-a principalmente pelo tamanho das letras, embora goste muito do material de estudo. Carregá-la dá a sensação de transportar uma pequena biblioteca.

Com o passar dos anos, aliás, descobrimos certas coisas sobre nós mesmos que a juventude não avisou. Letra grande, por exemplo, deixa de ser luxo e se transforma lentamente em necessidade.

Ainda guardo minha velha Bíblia Revista e Atualizada, edição de 2007, também de letra gigante. Está surrada, marcada, com páginas que perderam a antiga brancura. Algumas passagens têm anotações nas margens; outras carregam sinais de sermões, estudos, viagens e domingos que já não sei contar.

Há livros que envelhecem.

Há outros que envelhecem conosco.

Enquanto caminhava naquela manhã, percebi que gostava da cena.

Um homem atravessando a cidade com uma Bíblia debaixo do braço.

Como antigamente.

Sempre achei bonita a imagem das famílias caminhando para a igreja. O pai, a mãe, os filhos, às vezes todos com suas Bíblias nas mãos. Não sei se a cena foi tão comum quanto minha memória hoje a faz parecer, mas ela ficou em mim. Uma pequena procissão doméstica seguindo pela calçada numa manhã de domingo.

Havia qualquer coisa de silenciosamente solene nisso.

Não era apenas uma família indo ao culto.

Era também uma geração levando a outra consigo.

Hoje se vê menos essa cena.

As pessoas vão de carro. As cidades cresceram, as distâncias aumentaram, e nem sempre a igreja em que escolhemos congregar fica perto de casa. Muitas vezes passamos por várias outras até chegar àquela comunidade onde encontramos irmãos, amizades, história comum e convicções doutrinárias com as quais podemos viver em boa consciência.

Há muitas razões legítimas para isso.

E há ainda a Bíblia no celular.

Ela está sempre ali, leve, prática, com dezenas de traduções disponíveis. Eu mesmo uso bastante.

Mas, quando posso, gosto de caminhar com uma Bíblia na mão.

Talvez porque exista nisso uma forma muito pequena de testemunho.

Lembrei-me de uma ocasião na Espanha. Eu estava estudando em Valência e peguei o metrô para ir à igreja. Levava comigo uma Bíblia NAA, edição de 2017, com uma capa desbotada e, naturalmente, também de letra grande.

Em algum momento percebi alguns olhares.

Duas ou três pessoas notaram o livro. Houve comentários baixos entre elas. Não consegui compreender exatamente o que diziam, e talvez nem estivessem falando de mim. Mas tive a impressão de que haviam reconhecido a Bíblia.

Aquilo ficou comigo.

Talvez porque, numa sociedade bastante secularizada, certos objetos que para nós são comuns tenham adquirido novamente uma espécie de estranheza.

Uma Bíblia visível já diz alguma coisa, ainda que não diga tudo.

É claro que carregá-la não torna ninguém piedoso. Conhecemos bem demais o coração humano para imaginar uma coisa dessas. Pode-se levar a Escritura debaixo do braço e manter a vida muito longe dela. Hipócritas também sabem citar versículos.

Mas não era nisso que eu pensava naquela manhã.

Pensava apenas na simplicidade de tornar visível aquilo em que cremos.

Somos, afinal, o povo do Livro. Não porque papel e tinta possuam alguma virtude misteriosa, mas porque cremos que Deus falou, que Se revelou, que nos deu Sua Palavra e que essa Palavra nos conduz a Cristo.

Talvez, então, não seja coisa tão insignificante assim atravessar uma cidade com uma Bíblia debaixo do braço.

Pode ser apenas um homem caminhando numa manhã quente de domingo.

Um homem que tomou café com leite, comeu pão com ovo — preparado por ele mesmo, convém repetir — e saiu de casa para ir à igreja.

Pode ser que ninguém repare.

Mas pode ser que alguém veja.

Talvez um homem parado no semáforo. Uma senhora saindo da feira. Um rapaz numa motocicleta. Uma criança segurando a mão da mãe.

E talvez aquela imagem desperte alguma lembrança.

Uma avó lendo as Escrituras.

Uma igreja frequentada na infância.

Uma oração esquecida.

Ou apenas a percepção de que ainda existem pessoas que creem.

Cheguei à igreja pensando nessas coisas.

Atrás de mim, a cidade continuava exatamente como antes: os carros de som, as motocicletas, a feira, o calor de agosto. Nada extraordinário havia acontecido. Ninguém me parou na rua. Ninguém perguntou o que eu carregava.

Era apenas uma Bíblia debaixo do braço.

Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto da cena.

A fé quase sempre atravessou o mundo assim, em coisas pequenas.

Uma família caminhando para a igreja.

Uma Bíblia aberta sobre uma mesa.

Uma oração feita em voz baixa.

Um livro gasto pelo uso.

Um homem seguindo devagar por uma cidade quente numa manhã de domingo.

Coisas pequenas que apontam para coisas antigas.

Sinais de que nem tudo começou conosco.

E de que ainda existe uma estrada antiga pela qual vale a pena caminhar.

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