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Misericórdia de Deus: o nome que recebemos

Davi Eduvirges
1 dia atrás
O pecado pode marcar nossa história e até parecer definir quem somos. Mas o que acontece quando Deus chama de “meu povo” aqueles que antes não eram seu povo? A misericórdia de Deus revela uma identidade que não conquistamos e nos convida a compreender o que mudou entre o nosso antes e o nosso agora.


Em sua primeira carta, no capítulo 2, versículo 10, o apóstolo Pedro escreve: “antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus”. E acrescenta: “antes não tínheis alcançado misericórdia, “mas, agora, alcançastes misericórdia”. Veja:

“vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.” (1 Pedro 2:10)

Pedro descreve a identidade dos cristãos: antes e agora. Quando ele fala de um povo que não era povo e de pessoas que não haviam alcançado misericórdia, retoma palavras pronunciadas séculos antes por Oseias. Para compreender o “agora” de Pedro, precisamos voltar ao “todavia” de Oseias.

“Tornou ela a conceber e deu à luz uma filha. Disse o Senhor a Oseias: Põe-lhe o nome de Desfavorecida, porque eu não mais tornarei a favorecer a casa de Israel, para lhe perdoar.

Disse o Senhor a Oseias: Põe-lhe o nome de Não-Meu-Povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus.

Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que se não pode medir, nem contar; e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo.” (Oséias 1:6,9-10)

A misericórdia de Deus no Antigo Testamento

Nos versículos 6 e 9 do primeiro capítulo de Oseias, Deus transforma a família do profeta em sinal para Israel. A filha recebe o nome de Desfavorecida. O filho é chamado Não-Meu-Povo.

O capítulo parece terminar de modo irremediável. No versículo 9, Deus declara: “vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus”. Depois disso, o que ainda poderia ser dito?

O versículo seguinte começa com uma única palavra: “Todavia”.

O juízo é verdadeiro, todavia não terá a última palavra. O número dos filhos de Israel ainda será como a areia do mar.

No mesmo lugar em que se dizia: “Vós não sois meu povo”, será dito: “Vós sois filhos do Deus vivo”. E a reversão chega ao clímax em Oseias, capítulo 2, versículo 1:

“Chamai a vosso irmão Meu-Povo e a vossa irmã, Favor.” (Oséias 2:1)

A graça retira a negação dos nomes. Não-Meu-Povo torna-se Meu-Povo. Desfavorecida passa a ser chamada Favor. O povo não conquistou nomes melhores. Deus mesmo reverte a sentença e concede uma identidade que o povo não poderia produzir.

A misericórdia por trás do nome

Há, porém, uma ligação que nossa tradução não permite perceber imediatamente. O Antigo Testamento foi escrito principalmente em hebraico, mas, antes de Cristo, começou a ser traduzido para o grego. Essa tradução, conhecida como Septuaginta, circulava amplamente entre judeus de língua grega e é frequentemente refletida nas citações do Antigo Testamento feitas pelos autores do Novo Testamento.

Pedro escreveu sua primeira carta em grego.

Quando colocamos as duas passagens lado a lado nessa língua, percebemos o que não aparece em português. Onde a Almeida Revista e Atualizada traz o nome “Favor”, a Septuaginta emprega uma palavra que significa “aquela que recebeu misericórdia”. Pedro emprega uma forma relacionada do mesmo verbo ao declarar que seus leitores antes não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam.

“Semearei Israel para mim na terra e compadecer-me-ei da Desfavorecida; e a Não-Meu-Povo direi: Tu és o meu povo! Ele dirá: Tu és o meu Deus!” (Oséias 2:23)

Perceba que Deus se compadece da Desfavorecida e diz a Não-Meu-Povo: “Tu és o meu povo”. Pedro reúne as duas declarações: “agora, sois povo de Deus” e “agora, alcançastes misericórdia”.

Pedro toma essa reversão e a pronuncia sobre a Igreja de Cristo. O “agora” de Pedro é o momento em que a promessa de Oseias alcança um povo reunido por Deus.

A misericórdia que nos dá identidade

Talvez pensemos na misericórdia como o socorro que Deus oferece quando falhamos. Pedro fala de algo maior. A misericórdia de Deus não apenas socorre o seu povo; ela está na origem da identidade desse povo. Não éramos povo, mas agora somos. Não havíamos alcançado misericórdia, mas agora a alcançamos.

Nosso pertencimento não repousa em nossa origem, em nosso desempenho ou em alguma dignidade encontrada em nós. Repousa na palavra daquele que chama o Não-Meu-Povo de “Meu povo” e a Desfavorecida de “aquela que recebeu misericórdia”.

Isso retira de nós tanto o desespero quanto a presunção.

Retira o desespero porque nosso nome não possui a palavra final. O pecado produziu uma ruptura. Mas a misericórdia pronunciou uma palavra posterior e maior. Quem ouvia “Não-Meu-Povo” agora ouve da boca de Deus: “Meu povo”.

E retira a presunção porque nosso nome não é uma conquista. A Igreja não é a comunidade daqueles que mereceram pertencer. É o povo que Deus reuniu por sua misericórdia.

Por isso, quando Oseias ordena: “Chamai a vosso irmão Meu-Povo e a vossa irmã, Favor”, não é o povo que produz a restauração. Deus reverte os nomes; o povo aprende a repetir aquilo que Ele declarou.

Antes, não éramos povo. Agora, somos povo de Deus. Entre o antes e o agora não está nosso mérito, mas a misericórdia. Ela nos livra do desespero, porque nosso antigo nome não determina nosso destino; e do orgulho, porque não conquistamos o nome que possuímos.

A misericórdia teve a última palavra sobre nosso nome. E dessa palavra nasceu um povo.

 

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